a carruagem sete

30.12.09

 

1

Align Righta verdade é que isto não é um blogue, é um caderno. deixo os dias passar e passa-se muito mais dentro, onde há ruas com altos prédios brancos de pessoas a conversar e outras a gritar nas varandas. acho que cresço rápido. agora, já há coisas que me apertam os pés na terra. o dia em que olhar o meu reflexo num lago verde e não vir a verdade destes vinte anos, é esse o dia em que deixo de existir. ninguém entra no meu quarto. a garganta seca, as rugas e os meus olhos levemente rasgados assentam a fé na esperança de que esse dia não chega. deixamos crescer a barba para esconder tudo menos os olhos e as rugas. nada mais interessa. eu tenho em mim um impulso que é feito do melhor que existe. quando tocamos o refrão da senhora do monte, não é português nem chinês. quero viver todos os meus segundos nesse lugar frio que é a verdade. tudo o que eu tenho sou eu, não sei palavras difíceis. isto é poesia barata, como ir jantar ao carlos ou rir. o meu problema ou o génio são estas veias grossas herdadas de quem as merece. eu não tenho fraquezas.

27.10.09

 
neste tempo, ponho as coisas nos seus lugares. não chega a poesia, é preciso ter força bruta nos braços e nos olhos. a vida basta, mas não me esqueço da vida.

26.10.09

 
sou de leonforte, lá em cima em val demone, entre enna e nicosia. sou um proprietário de terras com três belas filhas. três filhas mulheres, cada uma mais bela que a outra. e tenho um cavalo, no qual percorro as minhas terras sentindo-me um rei. mas não me parece que seja tudo, sentir-me um rei quando monto a cavalo. gostaria de adquirir outro conhecimento, de me sentir diferente, com algo novo na alma. daria tudo aquilo que possuo, até o cavalo, as terras, para me sentir mais em paz com os homens, como uma pessoa que não tem nada que se censurar. não por eu ter alguma coisa em particular que me censurar, nada disso, e também não falo no sentido da sacristia. mas não creio estar em paz com os homens. gostaria de ter uma consciência fresca, que me pedisse para cumprir outros deveres. não os do costume, outros, deveres novos e mais altos para com os homens, porque, cumprindo os do costume, não há satisfação e continuamos como se não tivéssemos feito nada, descontentes connosco, decepcionados. acredito que o homem esteja maduro para outra coisa, não apenas para não roubar, não matar e ser um bom cidadão. acredito que esteja maduro para outra coisa, para outros deveres, novos. é isto que se sente, creio eu. é a falta de outros deveres, de outras coisas por cumprir, coisas por fazer para a nossa consciência, num sentido novo.

sim, senhor, sim. creio que tenha razão, é professor?

eu, professor?

(risos)

não há nada para rir, avozinho, não há nada para rir. acredito que seja mesmo isto: já não provamos satisfação cumprindo os nossos deveres. cumpri-los é-nos indiferente, ficamos mal na mesma. e eu creio que seja precisamente por isto, por serem deveres demasiado velhos. demasiado velhos e tornados demasiado fáceis. sem mais significado para a consciência.

mas diga lá, não é professor, o senhor?

tenho ar de professor? não sou um ignorante, posso ler um livro, se quiser, mas não sou um professor. andei nos salesianos quando era rapaz, mas não sou professor.
sicilia

7.7.09

 

o império

o império, não o conquisto; as guerras não são guerras. o meu império cresce na nudez quem recebe. dar é atacar, receber é cair.

2.7.09

 
subiram à senhora do monte sem fazer cerimónia, porque isso é para os meninos. a verdade escondida pela vergonha é para os meninos e dá mania. levavam os dois as suas caras crísticas, com barba e olhos. é, sim, a senhora do monte, sem cerimónia. de acordo com as suas caras, a cidade quieta até ao rio, quieta como um rei, nascida da terra. já tinham combinado consigo mesmos que seriam verdadeiros, esse era o ponto de partida da sua amizade, embora nunca tivessem falado sobre isso. não prometeram um novo império ou sequer um novo mundo. aliás, não prometeram nada de novo, apenas a verdade dos seus espíritos eleitos. eu sou o claro eleito e eu vivo à luz de um sol jamais anoitecido. acabadas as palavras, atiraram os ténis para a cidade, pegaram nas bicicletas e desceram.

29.5.09

 

pintar

um passeio de bicicleta, uma dança no pátio por cima da fonte luminosa, óculos de sol na rua das chagas e um traje negro na rua Augusta vazia. para a dança, um plano de longe e uma noite de verão - tem de ser no Verão. a verdade da cidade, pinto-a no Verão. mais duas cenas à volta da mesa (uma talvez em Roma) e a história está contada. isto é o meu esboço.

26.5.09

 
caminham lado a lado duas crianças, com os pés sobre o alcatrão quente das ruas da cidade deserta. só as vejo ao longe de costas. há demasiada luz e tenho demasiada sede. os prédios enormes, amarelos e destruídos dos dois lados da estrada abrem-na ao céu azul. nem sequer consigo abrir bem os olhos, apenas oiço ao fundo as suas vozes cantando alegria. os dois cantam e andam, saltitando e chutando pedras de vez em quando. já os vejo a trepar às ruínas das grandes estátuas e a tomar banho nas fontes verdes. também entram em carros velhos e fingem guiar. eles não sabem que um dia terão de deixar a cidade deserta, deixá-la só com os gatos que lá vivem. por agora, os seus banhos são os do verdadeiro homem. quando se forem embora para entrar noutra cidade viva, que cada um leve o outro montado num burro, com este mesmo calor, para que sejam homens perfeitos.

9.5.09

 
só existe uma relação pura na arte se as pessoas forem verdadeiras.

1.5.09

 
nenhum lugar é melhor que o castelo para declararmos o amor, como quem declara a independência ou a guerra.

23.4.09

 

a festa

vamos para a festa. tu de branco e eu de azul, tremendo que nem doidos do frio e de não sabermos qual é o andar. subamos as escadas, tábua a tábua, pisando o ranger das hienas. vamos beber vinho e dizer coisas que não percebemos, porque somos nós quem tem o poder Criador. imagina uma sala de fumo e altas horas da noite, mas paradas no tempo, com cigarros e música dos anos sessenta. a arte está no espírito, e só no espírito. não há arte nas cordas nem no papel.

16.4.09

 

o contrário do medo

magnífica terra de estranhos
onde o fio do tempo corre apertadíssimo.
no medo latejante só levo o peso das costas
embrulhado em pacotinhos que murcham a luz.

medo que faz correr sangue de verdade,
mas num tormento devorador de imperadores,
antes do fumo branco ou negro dos fins,
onde se desfaz na poeira clara e brilhante
de um dia azul de sol e praia.
um dia azul de sol e praia
que faz correr sangue de verdade.

8.4.09

 
houve um dia em que eu soube que na casa dos vinte anos íamos fazer uma coisa grande, e assim foi. apresentamos os velhos, apresentamos Lisboa.

27.3.09

 
nós somos os animais que não descansam,
somos os animais que não dormem.
nós somos os animais que não morrem.

o nosso alimento é a verdade do horizonte no mar: a fé.

dançamos o hino sob o calor, na pista - onde os movimentos são a conquista do espírito, ou a sua tortura. de omoplatas cortantes e costelas à mostra, fazemos a dança do sol, contra a chuva da cegueira.

somos os animais que não dormem.

22.3.09

 

hino à minha cidade

aproxima-se um tempo das cores claras, em que as ruas se abrem ao sol do Verão. chegarão as cantigas e os bailes e as crianças correrão nas ruas, livres como pequenos animais em festa. treparemos as paredes enquanto descemos a calçada da estrela a cair para o rio e até ao poço dos negros chegará a luz da cidade nova. este é o tempo em que todos entenderão porque é que as nossas calçadas são brancas e o que é ser de Lisboa. e é esta a minha punch line: eles vão por terra e nós vamos por mar.

14.3.09

 

a nova canção

deixa-me dançar.
deixa-me dançar!
tu não sabes o que queres,
deixa-me dançar...

deixa-me dançar.
deixa-me dançar!
deixa-me dançar...
deixa-me dançar!

5.3.09

 

as palavras não servem

agora eu sei o que é o amor verdadeiro: o de dormir na mesma cama, seja por medo ou por alegria. encolher em conjunto, num aperto, e espreguiçar na hora da bonança. as palavras não servem, apenas serve a cor clara e viva que paira sobre elas. a posição dos teus cabelos faz toda a diferença na tua cara, quando olhas como um felino magro no meio deles. o amor verdadeiro é um amor de construção. não digo para dentro, é um amor de construção para fora. e tem vida própria, muito maior do que as nossas. é o fim e o princípio da rua - carlos mardel, num dia de sol, para quem vem da morais soares até à praça. é o meio da rua, com a luz a bater de chapa e a limpar a cor da pista de dança. cidade de verão, para ver o verdadeiro amor que é tão forte por ser urgente, e é tão urgente por ser alegre. atiramos tinta para o tecto ficamos todos pintados às cores, cores claras.

28.2.09

 
a alegria e a azia da potência, a alegria da dança e a azia da dança. ébrio ou esfarrapado? ébrio e esfarrapado? é encarnada a oração em que peço a melhor das danças. e é contínua, eu rezo tanto... dá-me a voz para eu dançar.
e tu, mulher de pernas tortas e magra, tu que dás forma às minhas sobrancelhas, empina-me esse nariz e põe as ferraduras mais pesadas.

18.2.09

 

guide-line

o rei que morre com o seu país é o que nunca vende a alma. o que luta pela reconquista é o que põe o pescoço em cima da mesa, porque a alma não é sua.

12.2.09

 

auto-retrato

cantar para chamar o Verão - chamada para o coração. eu não sei se a canção é uma de sim ou não, mas que vai em forma de oração. ninguém entra no meu quarto, só bate o sol para queimar as cores e mostrar que cidade é esta. também, eu nunca me farto, os óculos no meu rol a matar as dores e a cantar que a idade é festa.
cuidado com ela, que eu varro de dia: alegria no autocarro ou na lorella tornado.
aplico a crista à uma da madrugada e é a chegada à pista, onde me estico.
cavalgadas e guitarras, rua das chagas,
(electri)cidade radiofónica - o estado.
sou tudo ao mesmo tempo, sobre as vagas:
carpinteiro de cinema, roque e fado!

28.12.08

 
eu só escrevo sobre guerra, Deus e a cidade de Lisboa. entrei no 20 para o calvário e havia uma grande história para contar, mas a poesia toda está na mulher que se prepara para criar o neto que o genro não queria. a mesma mulher a quem o marido pediu para educar o filho que foi ter com outra a cabo verde. e ela tem aquela maneira de rir, tão preta!

20.12.08

 

setenta vezes vezes sete no bairro alto

oh, como sou um escravo do roque. há uma tanta e grande onda do roque português e oh, como eu sinto a minha devida presença. os velhos sabem aguardar o momento. eu vejo os génios da cidade moderna de Lisboa crescerem como vasos sanguíneos de um corpo espiritual, ao meu lado,vindos do norte e do nordeste. a cidade é toda minha, mas a partilha torna-se imperativa. o poeta da cidade sou eu, caraças, não me tentem! Lisboa navega nua e independente dos meus olhos que sempre tentaram um verde fosco morto e seco. se percebes a cidade moderna, se percebes o que eu vejo do roque, se percebes o que todos os espíritos constroem em mim, como messiânica amostra de Deus, fala comigo e percebe que os velhos devem contar estórias e canções porque há coisas que não podem ser ditas de outra maneira.

3.12.08

 

não sei até onde é que tu, meu amor de cortinas abertas, consegues ver com o nevoeiro que não destapa as praças e os supermercados sob o meu domínio.

não sei até onde é que tu, meu amor de cortinas abertas, consegues ver com o nevoeiro que não destapa as praças e os supermercados sob o meu domínio. é uma pergunta que faço a mim mesmo e não sei responder. entras pelas portas sem precisar de as abrir e todas as árvores te querem cheirar quando passas. és tu a encaixar na cidade, de botas. no que toca à arte, o que importa é perceber o hip hop. o alfredo marceneiro percebia o hip hop.

1.12.08

 

o bêbado pintor

encostado sem brio ao balcão da taberna
de nauseabunda cor e tábua carcomida
o bêbado pintor a lápis desenhou
o retrato fiel duma mulher perdida
era noite invernosa e o vento desabrido
num louco galopar ferozmente rugia,
vergastando os pinhais, pelos campos corria,
como um triste grilheta ao degredo fugido.
num antro pestilento, infame e corrompido,
imagem de bordel, cenário de caverna,
vendia-se veneno à luz duma lanterna
à turba que se mata, ingerindo aguardente,
estava um jovem pintor, atrofiando a mente,
encostado sem brio ao balcão da taberna.
rameiras das banais, num doido desafio,
exploravam do artista a sua parca féria,
e ele na embriaguez do vinho e da miséria,
cedia às tentações daquele mulherio.
nem mesmo a própria luz nem mesmo o próprio frio,
daquele vazadouro onde se queima a vida,
faziam incutir à corja pervertida,
um sentimento bom d’amor e compaixão,
p’lo ébrio que encostava a fronte ao vil balcão,
de nauseabunda cor e tábua carcomida.
impudica mulher, perante o vil bulício
de copos tilintando e de boçais gracejos,
agarrou-se ao rapaz, cobrindo-o de beijos,
perguntando a sorrir, qual era o seu oficio,
ele a cambalear, fazendo um sacrifício,
lhe diz a profissão em que se iniciou,
ela escutando tal, pedindo-lhe alcançou
que então lhe desenhasse o rosto provocante,
e num sujo papel, o rosto da bacante
o bêbado pintor com um lápis desenhou.
retocou o perfil e por baixo escreveu,
numa legível letra o seu modesto nome,
que um ébrio esfarrapado, com o rosto cheio de fome,
com voz rascante e rouca à desgraçada leu,
esta, louca de dor, para o jovem correu,
e beijando-lhe o rosto, abraço-o de seguida...
era a mãe do pintor, e a turba comovida,
pasma ante aquele quadro, original, estranho,
enquanto o pobre artista amarfanha o desenho:
o retrato fiel duma mulher perdida.
rêgo e marceneiro

30.11.08

 

do dizer hoje

Senhor, afasta de mim este cálice, ao penálti, a distância é curta.

29.11.08

 

o galo

havia um galo que dançava bem. em todas as festas do galinheiro punha as galinhas malucas. ele não era galo de excessos, mas em dias de festa deixava-se ir com a corrente. deitava fogo a toda a volta e saltavam penas a cada pirueta. quando a música acabava, ele perdia o encanto; ou as galinhas não lhe viam o encanto. é que ele continuava a dança dentro da cabeça, via a própria vida por fora como um grande espectáculo, numa sala cheia de luzes e camarotes, com altíssimos panos de veludo vermelho-sangue. batiam todos os dias as pancadas em vez do despertador. tinha tudo, era a personagem verdadeira e aventureira que se quer para uma peça de meia casa. bastava que as galinhas entrassem dentro da onda dele. elas que deixassem de bicar a merda do chão e de passar o dia a pôr ovos, que iam ver. caraças, eu não vou para a panela antes de dançar o tango da morte. todos me verão, pé a pé, a fabricar os quê? vinte e três, vinte e quatro minutos da dança que me obrigará a morrer. há um momento em que o meu calcanhar avisa que o meu tempo na terra acabou.

28.11.08

 
mas quando é que eu ponho a caneta na folha e aparece o meu grande filme?
quando é que eu ponho a folha na caneta e aparece o meu grande livro?

27.11.08

 

o externo rachado ao meio

antes de nascer de noite, olho para a vida como um compromisso explosivo selado entre a fonte luminosa, as fontes norte e sul do rossio e a fonte das tartarugas. nos dias ímpares, a espera azeda e adiamos os foguetes para amanhã. nunca deixamos de ser fiéis aos nossos desígnios, porque temos os dois ombros em carne viva e o externo rachado ao meio, todo aberto. é que temos de ir à praia grande durante a tarde, jantar na churrasqueira do sacramento, tocar roque entre évora e o chiado, bailar pela zona ribeirinha, pisar passeios da avenida de roma e comer bolos, pôr os vasos sanguíneos dos olhos no papel das duas formas, encontrar o cinema, e outras mais coisas. a metamorfose é longa e penosa, afinal; e o que no fim restar serão as nossas cores de pessoas-foguetes.

26.11.08

 
um dia vou escrever a herança de Pascoaes, Pessoa, Kerouac, Jesus Cristo, do Fado e do Roque.

25.11.08

 

jogar em casa

interessam as escadas de pedra e as cores dos prédios. sento-me com as pernas dobradas e o queixo nos joelhos, com a segurança de saber que me pode vir um tiro pelas costas e a esperança de que esse tiro não tenha de vir. discutimos os assuntos do desvio da órbita da terra com garrafas de cerveja na mão, entoando barbaridades inocentes e profecias verdadeiras sobre os vôos dos corvos. vemos cenas de cinema na cidade real: mulheres nuas e usadas deitadas tortas dentro dos contentores do lixo e planos perfeitos dos telhados. nós choramos e discutimos e, no fim de contas, vivemos mais.

24.11.08

 

bis

é tão menino escrever com hora marcada. não há sangue à hora marcada. talvez um dia sangre a toda a hora e possa escrever quando quiser.

23.11.08

 

viale delle mura aurelie

a amplitude das ruas de roma mede-se pela temperatura. ainda não percebi completamente a forma exacta de explicar isto, mas é evidente. eu monto lorella tornado, na estrada ou na alma, e pedalo com o bafo dos anjos na cara. é como da primeira vez. il viale delle mura aurelie diventa la vita, dopo l'una di notte. é a escalada única e final, onde se tira fotografias ao espírito e se imprime na pedra o epitáfio, letra a letra. penosa e alegre é a subida. no fim, sentamo-nos para olhar à volta e fumar um cigarro. o império aos nossos pés, ele e ela a chegar. vinte anos de diferença e o desplante de galantear a moça com três rosas mortas. o cheiro a podre tenta espalhar-se, mas passa pouco tempo até eles serem fervidos e evaporarem da minha vista. estava ali tudo montado, na praça com o nome da personagem que não me diz quem foi.

22.11.08

 

refrão:

o sol vai chegar à cidade, desaperta os cordões. não interessa a idade, ao alto os corações!

21.11.08

 

até agora, o futuro tem sido sempre maior que o presente

até agora, o futuro tem sido sempre maior que o presente. será a minha força a da juventude, a da era que chega: a força da geração. herdar o passado e disparar o futuro. mas não me basta a onda, eu sou uno. e sou huno. terei de subir o elevador da glória. quero que vejam os quadros pintados, as paredes escritas e o coração magro, moribundo. quero que vejam o pano de fundo, o dedo que aponta para mim. continuarei a comer farturas e a dominar as pistas de dança, mas é urgente que vejam como sou grande. este não é um texto egoísta.

20.11.08

 
como a mulher que vem todos os fins de noite no comboio da ponte, eu sinto as peças tremer sempre à beirinha da morte. a qualquer instante tudo o que construí dentro ou fora das minhas costelas pode ficar esquecido - nesse instante, não restará ninguém para defender as relíquias presas no céu da minha boca. a ponte vibra e chia e eu vibro e chio com ela, tu-tum nos carris. levo um saco de papel na mão e o cabelo preso com uma mola de plástico, que também me segura de não cair ao rio. é que eu passo a ponte e o rio; eu vou de pernas fechadas na cadeira azul, mas segue a marinha e é mais um dia na cidade.

19.11.08

 

un giorno pesante

da oggi, perché bisogna vincere la pigrizia, scriverò tutti i giorni. seja merda ou ouro.

31.10.08

 

saudades de portugal em itália

são as ondas da vida moderna a lutar contra mim. os meus pulmões não me deixam soprar o sufoco, nunca se enchem totais. há um mundo bélico atrás dos meus olhos, é a guerra do mundo moderno dentro de mim. já não é o espírito ou a carne, é o espírito ou o nada. não sei o que te devo dizer. esta é a minha batalha. aqui nunca ninguém entrará, combatem as minhas artérias e as minhas veias, lutam os meus músculos e os meus pêlos. não me seguram as cartilagens nem os ossos. nascem-me chifres, garras. crescem-me os dentes e as pestanas. vou-me curvando diante do oceano. o mar que não vejo agora, a querer comer-me - a querer acabar-me. a espuma invade os meus olhos e a água que engulo gela-me atrás do externo. conto-te a ti como tudo é. isto sou eu todo. a almirante reis de noite a dormir de olhos abertos e a não ter fim. conto porque é o tempo da guerra, conto que o meu corpo está frio, mas jamais me ouvirás uma palavra sobre a temperatura do meu coração.

13.10.08

 

perder o medo do imperativo

não temas. tudo isto não passa de alguns molhos de palavras coladas umas às outras de uma forma estranha. disse estranha porque me pareceu bem dizê-lo assim. acredita que a minha fasquia está para lá do record do mundo. percebe o que os meus olhos te dizem, percebe. esta gruta é tão grande e parece haver um lago lá ao fundo. se não soubesse que isto é o esgoto e que lá ao fundo é o tejo, dizia-te de uma maneira mais fantástica que consigo ver que os teus olhos são verdadeiros. deixa oxidar essas argolas que tens nas orelhas e confia pelo menos no meu impulso. sabes que o mundo sou eu. mandei-te a mensagem para vires aqui só por uma razão. tive que perder o medo do imperativo. ajuda-me quando eu precisar, minha irmã.

7.10.08

 

cartas de roma

é esta coisa que eu alimento em mim, a amargura do quarto escuro, o fechar dos portões. um masoquismo quase espiritual. querem reabilitar-me dos estragos da solidão. e eu digo não. nunca ninguém entrará pela minha garganta, pelas fibras e a pele. há um canto em que eu sou a esquina negra da minha alma. até prova em contrário, a cor dos prédios e o ar de Roma dão dez a zero a tudo.

25.9.08

 
é tão menino escrever com hora marcada. não há sangue à hora marcada. talvez um dia sangre a toda a hora e possa escrever quando quiser.

18.9.08

 

cartas de roma

vivo no fosso entre o homem e o cão. serei homem e sou lobo, não serei cão. mas vivo no fosso.

2.8.08

 
não rezo para que me dês coisa alguma.
todas as minhas orações são em tom enrascado.
tenho o maior peito do mundo.


 

cartas de outras terras

o rio entre os homens e os heróis é fino. o que interessa é quanto coração sai pela boca e por baixo das unhas. parece-me que o tamanho do coração não vale pontos. prefiro não fazer contas à abertura da minha boca e dos meus dedos. havia uma cidade onde era sempre fim da tarde. a luz inclinava-se para o buraco da noite, mas nunca caía. por isso, a cidade era cor-de-laranja e cor-de-ameixa. os prédios pendiam para a rua, mas não tombavam. e os carros roncavam mas nunca andavam a mais de trinta. nas goelas, as palavras entupiam-se umas às outras e nunca saíam direitas. nos ares condicionados, as gotas ameaçavam, mas não caíam. de para lá do horizonte, vinham todas as estrelas, o vento e o silêncio. esperava a noite, pela sua vez de entrar. o frio da solidão e da paz e da não-solidão espreitavam. a melhor das noites, que nunca chegava. e as janelas das cozinhas nunca se abriam completamente. a noite eminente enfeitiçava a cidade viva, mas era sempre fim da tarde.

20.6.08

 

tudo indica que serás meu mestre e eu teu aprendiz; tudo indica que há aqui um qualquer laço maior, de sangue ou igual...

"O padre Evágrio mostra Antioquia a Jerónimo. Os dois passeiam e conversam, prendendo a atenção dos transeuntes. Jerónimo alcançara já uma certa fama literária, como alcançara aquele período da existência, em que um homem se apropria das suas forças, dominando-as e dirigindo-as, no sentido da sua vontade, que é afirmar-se. Somos originariamente uma cousa informe ou colectiva, matéria prima. Compete-nos esculpi-la ou individualizá-la. A individualidade que nos define, conquistamo-la, hora a hora, lutando e trabalhando, cobertos de suor e de pó. Esta luta heróica distingue-nos dos outros animais, que jazem num perpétuo estado colectivo. Entre Jerónimo, estudante, em Roma, e Jerónimo, o asceta de Belém, há uma distância de bloco de mármore e estátua. Agora, entrega-se todo à sua obra de escultor, - obra que a morte conclui, porque a vida a iniciou. Temos, dum lado, a morte; e, do outro lado, a vida, ou o espaço e o tempo, dois limites que parecem, mas não são, invioláveis."
Teixeira de Pascoaes em São Jerónimo e a Trovoada

12.6.08

 

cinco de cinco dois dias antes - endireitando o retrovisor

tua é a culpa do que há de tripas em mim. foste tu quem deu uma lição de trocas eléctricas à minha pele. não oiço as tuas letras mas trago comigo o corpo em que me prendeste. não mais me largará o encantamento da electricidade dos corpos. não é traição nem confissão culpar-te da presença do mundo em mim. é, de certa forma, um reconhecimento: culpo-te de alguma coisa. um beijo do sempre teu.

p.s.: não é só isto.

 

quatro de cinco um dia antes

a confusão do amor mede-se em músicas feitas para desenhos animados. diria que vamos tão longe quanto o tamanho da explosão de cores e barulhos das músicas feitas para desenhos animados. decerto não percebes o que eu digo; só podes ver a ponta de tudo isto. não percebes a poesia, não percebes a poesia. vamos tão longe quanto a nossa sede e o número de horas que aguentamos acordados a dançar debaixo do mesmo sítio. tudo isto para dizer que preciso de uma noite de glória na pista de dança.

27.5.08

 

três de cinco no dia errado

ninguém poderá servir a dois senhores. se servir o corpo, as minhas veias não tardarão a explodir em protesto. não fui feito para ver as coisas da mesma forma que os outros. a mudança do sinal pode mesmo ser o momento do dia, e há setenta milhões de palavras por trás de todos os movimentos. acredito que haja escolha para outros, mas não para mim. a bolsa ou a vida, que é como quem diz a vida ou a morte. eu escolho a vida e servirei o senhor que sou, servirei o meu espírito. meu amo, deixeis que vos sirva?

21.5.08

 

cada macaco no seu galho, a salvar

não via tão bela coisa desde a italiana que andava de bicicleta e em quem tudo era verde branco ou prateado. ao largo do jardim de outrora e de agora, a mulher chupada levava as três filhas pela mão. eram todas morenas. a grande e a média tinham piada, mas a pequena é que lhe agarrou as pestanas. uma indiazinha de metro e vinte, praí. tinha uma cor suja e o cabelo era comprido. olhava para todos os lados com aqueles berlindes de cobra, verde-claros. tudo à volta da menina tomava uma luz branca de infância ou de eternidade. ela tinha agarrado o pau que há dentro do autocarro e a mão não dava a volta toda, era espectacular! quanto mais a olhava, menos se passava à volta. o melhor estava para vir. a puta levava as três filhas pela mão, as duas mais velhas à esquerda e a princesa à direita. a bonequinha tentava acompanhar o passo das outras, mas era difícil. punha as perninhas a mexer rápido e conseguia chegar à frente, mas quando começava a andar, as outras iam mais depressa e ela ia deslizando para trás. depois, dava mais pulinhos para se chegar para a frente e voltava a andar e a deslizar por culpa da sua pureza. isto repetia-se vezes sem conta e era sempre melhor do que na vez anterior. foi então que lhe passou o tiro pela cabeça. a probabilidade de a miúda dar também em puta ou em drogada ou só de acabar na merda era grande demais para não a salvar. por isso, escreveu a história da índia, para que o mundo fosse mais encarnado escuro e menos roxo.

 

ao vivo e a cores, dum oasis temporal

não há como fugir ao equilíbrio. a cegueira não basta mas a vista traz um brinde. (isto que acabei de fazer é uma brincadeira engraçada, porque na verdade não estou mesmo a falar de coisas dos olhos)

7.5.08

 

dois de cinco

o que tenho dentro de mim é vento. não sei por onde começar, o que prova isso mesmo: o que tenho dentro de mim é vento. atormentarei os homens e 'dar-lhes-ei um só coração, porei no seu íntimo um espírito novo: removerei do seu corpo o coração de pedra, dar-lhes-ei um coração de carne' que os leve a bom porto. nunca as ondas gritaram como hoje. que se apertem os nós, pois a jornada é longa.

6.5.08

 

um de cinco

as falas dela não podem ser longas, porque há uma medida certa para as palavras ditas. para além disso, aquilo só funciona com meia dúzia de sílabas e um par de sobrancelhas. agora, é como jogar futebol: vou à procura do golaço, meio a defender, meio a atacar, numa língua que não domino. a graça do ser está na força da procura.

18.4.08

 

hoje é a dos lobos

os meus lobos são lobos: famintos e salivantes. no espírito, também tenho as costelas a ondular a pele e o pêlo mal plantado. deixo os olhos encherem-se de sangue porque é mais verdadeiro ver tudo assim. quando ando, as minhas omoplatas magras mexem-se para cima e para baixo, uma de cada vez, e os meus dentes são a minha vontade. não há danças falsas. todas as mulheres se deixam cair, a dançar. a fome é tão importante como a dança. não há maior força que a da verdade, por isso a pele é minha e as mulheres dançam nuas. numa floresta sob a lua, há lobos e há mulheres a sair dos esconderijos por trás das árvores em danças consumistas (da alma). serei sempre eu, a uivar.

7.4.08

 
ninguém me disse que não se pode perder. eu sei que sou um perdedor e que sei ser perdedor. eles fazem as contas deles, eu faço as minhas. não falo de gambas, falo de corações. não se pode perder o coração. e ninguém me disse que não se pode perder o coração. mas eu percebo, não é coisa de se dizer. o coração só sabe viver nas mãos. uma vida a levar o coração escorregadio nas mãos, e tudo para chegar ao fim com ele desfeito, em sangue. oh! como vos engano, seres surdos para as palavras! venham ver o coração nas mãos! a alegria que é o coração nas mãos! ninguém me disse que não se pode perder!

23.3.08

 

sms

longe vai o tempo do terramoto que destrói a terra. Deus, dá-me cor. pintarei a minha cruz e viverei a minha paixão. serei crucificado com os pés para baixo e a cabeça para cima. estou sempre a ressuscitar. meu Deus, como te devo a Ti, meu Amor. devo-Te a minha cruz; agora, somos a confusão. eles talham a madeira, nós somos bois de lavrar. Tu dás-me forma. amo-Te.

21.3.08

 

glória

o grande bandido da vila era uma mulher. dois, três tiros e punha tudo a dançar. até aos cavalos parava a língua pendurada nas pontas dos pescoços possantes. era difícil perceber de onde vinha o sol, porque batia em todo o lado. nenhum pirata ousava olhar as sobrancelhas descalibradas e os cotovelos definidos. rompia pela avenida calando os passeios. os calcanhares batiam a um tempo certo, o que tornava tudo mais forte. chegada a hora, virou noventa graus para um dos lados e entrou no bar. muito tempo entre a porta e o balcão e pediu um rum. do outro lado, atendeu um homem cheio de cicatrizes. de mão forte, pegou-lhe no queixo com indicador e o polegar. minha menina. serviu-lhe a bebida. as sobrancelhas dela mudaram. levantou a garra e, devagar, rasgou a pele ao homem, abrindo-lhe uma ferida. e assim ficaram, de ferida aberta e sobracelha mudada.

17.3.08

 

minha própria chibata

é o momento do sabor amargo na boca. e a amargura desenha no sorriso um contorno de ironia e desespero. os punhos ainda em guarda e os olhos a perceber que o inimigo não está à volta. mesmo assim, desgrenhado e com pingas a cair pela testa. as mãos tremem na ânsia do momento seguinte, dentro das luvas. o silêncio cobre toda a rua e todo o seu corpo liberta fumo. o coração descontrolado começa a abrandar. tenta ver na memória a cara do adversário mas não consegue. finalmente, depois de segundos de tensão, cai em si e o coração manda baixar os braços. apenas os olhos estranham a falta de resposta dos ombros. o coração manda andar, e os olhos parecem sufocar, virados para os pés quietos. o outro não estava à volta, estava dentro.

13.3.08

 

escrito

estaria logo atrás da porta sentado numa cadeira de madeira a escrever uma canção ou só a perder. ao meu lado, o pó da mesa à espera da queda de uma mão ou de um pano para voar e cair como foguetes. as portadas abertas deixariam entrar os gritos desfazados e a cor de lisboa; a varandinha de pedra branca abrir-se-ia feliz ao sol. a cama desfeita, provavelmente, e um ou outro copo de água para enganar a sede. mas nada disto diminuiria o instante em que o teu pé fizesse ranger a estrutura do meu prédiozinho e a estrutura do meu espírito.

2.3.08

 

uma fábula

- contamos estórias porque há coisas que não podem ser ditas de qualquer maneira.

era um coelho, que vivia na floresta. todos os dias saltitava pelo meio das ervinhas e dos troncos para procurar cenouras e outras coisas dessas. era um coelho normal, andava de um lado para o outro e tinha uma toca. todos os dias eram iguais: procurar comida e depois ir dormir. um dia, numa das suas buscas, o coelho encontrou um objecto muito grande e estranho, no chão. era uma peça que consistia num arco mais ou menos apertado com as pontinhas dobradas para dentro preso a um fio que acabava numa rodela fria de metal. o coelho já tinha visto aquilo em qualquer lado, por isso, pegou nas pontinhas dobradas e enfiou-as nas orelhas. quanto à rodela, encostou-a ao peito. então, concentrou-se e começou a ouvir... tum-tum, tum-tum, tum-tum... a partir desse dia, a vida do coelho nunca mais foi igual, pois ele percebera que tinha dois corações.

27.2.08

 

o meu segredo

deve ter-me escapado alguma coisa. estou preso. não sei o que dizer. a solidão é o meu fado, a minha cruz. não interessa o lado para que me vire. não sei muito sobre esta divisão, mas uma sala é que não é. sei que não sou um vaqueiro para jogar com duas pistolas, não sou o miguel ângelo para rodar duas matracas, não é sequer isso que pretendo (como é óbvio). no entanto, não esperei nunca ser queimado da direita e da esquerda, ou da esquerda e da direita, não sei. tu tinhas de olhar para mim. e tu tinhas de ver mais. não devo estar em mim, esquece o que eu disse.

4.2.08

 

fala em surdina, o do canto mais fumarento e negro, com os seus olhos de paixão

é tão pequeno o que me impede de estar contigo. em cada vez que oiço a tua voz, disparo para fora do mundo, onde está a tua pele seca e morena. és o meu anjo mudo e frágil. quando digo que és minha, não quero verdadeiramente dizer isso, é só uma maneira de dizer que és comigo e eu sou contigo. não é fácil pôr isto em palavras e nem sei se é possível. ao pé de nós tudo parece demais. o silêncio desta sala (ou de qualquer outra) e o reflexo tremeluzente que, em conjunto com a chaminé negra, forma um belo quadro no espelho transporta-me para um lugar que não deixa de lutar pela existência. um lugar em que tudo se confunde, entre as nossas peles entre os meus dedos e as rugas dos teus olhos. as costas da minha mão e os teus ombros magros e ossudos. é-me difícil contornar a ideia de que a situação actual é muito pior do que podia ser, ou melhor, que tudo podia estar mais perto do Bem. talvez seja a estória da corrupção do eterno que há em nós pelo mundo. sinceramente, parece-me que o que nos separa da plenitude não é mais que uma de duas coisas, ou um pouco das duas: o facto de nós cedermos e comermos tantas vezes o fruto proibido (o que é estúpido) ou a simples ignorância, fruto da nossa cegueira para a imensa luz de Deus. quanto a isto, acho que a parte do absoluto amor que arde nos nossos peitos nos vai abrindo os olhos para quase tudo. assim, resta-nos combater os vícios da nossa prisão e estender as mãos de verdade. eu acredito nos teus pulsos dobrados, deixando pendurados os dedos que poderiam dançar ao vento. parabéns.

p.s.: se te parecer um dia sentir os meus dedos a agarrar os dois lados da tua barriga, descansa, porque serei mesmo eu e nunca mais irás morrer.

31.1.08

 

postal

a estupidez do agora parte-me aos bocados. acontece tudo longe das cores que consigo decifrar e volta a fugir-me o chão. o desenrolar das coisas não é mais que uma sucessão de momentos com um encadeamento nada lógico e nem sequer compreensível. e agora? agora tudo acontece e eu não me mexo, nem para um lado, nem para o outro. e tu decerto estás com essa cara de quem esconde dentro do corpo um coração maior. mas temos que ir ver esses olhos, menina.

7.12.07

 

ensaio sobre o amor próprio; um

cegamente.
acredito que caminharei sempre. e tenho a honesta infelicidade de acreditar que o que sou não é médio. longe vão os tempos da arrogância fugitiva que manipulava, de vez em quando, as mãos e boca de alguém a quem as borbulhas iam passando ao lado. já não falo de quase nada assim tão fácil, sem querer ser parvo. agora arde um lume constante de importância dentro de mim. ao mesmo tempo, não estou seguro que seja direito meu apoderar-me de um papel com falas. mas é o que sinto. dentro das minhas costelas vivem pulmões cheios de ar, que produzem uma voz alta e muito fulgor para esbanjar. eu sou a guerra entre a cadeira que desejo no canto mais fumarento e a luz redonda. vendo bem, acho que não requiro, realmente, a projecção da minha cara, o que não impede que sinta a necessidade da projecção do meu coração. espero e creio que a minha venda como cara já se tenha dissolvido em oferta como espelho do meu vento. volto sempre à força do meu vento, que parece agora querer assumir mãos não só dentro do meu corpo, como fora dele. sou servo de uma alma que se eleva para lá de média. a direcção dos ares que movo ergue-se por trás dos meus olhos numa bolha de orgulho. é tudo como um enorme peso assente numa base insegura. mas tudo é por bem. em princípio, nada é por mim.

 

querido conflito interior,

a complexidade da construção de uma paixão legítima e imune à crítica interior ou exterior tem-me arranhado as costas. não posso, de nenhuma forma, ser responsável pela prisão do meu coração. no entanto, o meu coração é uma bomba e ama tudo. eu como meu coração não escolho quem quero que me contorne o pescoço com os dedos finos e frios. mas eu como mente pretendente a esclarecida, de linhas definidas e talvez exageradamente tatuada, duvido que me vá deixar cair em algo parecido com o que outrora corroeu os anjos que vivem em mim. mas acredito que não é esse o caso. sei que estás à rasca. eles dizem que se pede socorro, mas eu sei que deixares-te ficar de estômago vazio, com fome de fazer querer vomitar é a saída mais honesta. eu também saio por aí. oh, como tremes, meu anjo. meu anjo fraco precisando de alguém que lhe cheire o cimo das costas e que aguente o peso do mundo e que a deixe entrar devagarinho. meu anjo precisando de mim. será que não é trair-me (como mente ou como coração) entrar na tua vida oculta e trazer-te à emersão para que respires e depois ames e depois te gastes a meu lado? lembro-me do teu olhar caído a esconder todas as palavras que teimam em não sair. a esconder todas as palvras que lutam por se formar e libertar. as palavras, as palavras. elas vivem aquilo que são, e há palavras não são do mundo, claro.

hoje lembro o companheiro secreto. o norte de dois putos à procura das palavras. saudade.

27.11.07

 

ponto de viragem (se eu quiser, porque Deus quer)

estou condenado à minha forma. perfeito! vamos então começar.

21.11.07

 

eu absurdo

era quase para vir aqui falar sobre a responsabilidade de uma existência como pessoa dona de um coração, mas fica para depois.

eu gosto mesmo de ironias a roçar o absurdo, como quando te vejo. tu não fazes ideia de quem és e, para mim, está tudo nos conformes, como sempre. tudo ali no mesmo sítio. um homem entra, chega até a cumprimentar o adversário (que conversa injusta), e pensa que está a viver mas não está, pelo menos no que diz respeito a nós dois. acho que posso justificar a minha alegria vazia pelo hipnotismo. erguer-te-ia um palácio sem que tu reparasses, naquele momento, ou talvez desse umas cambalhotas, mas tu nem deixavas cair o olho em mim. é aqui que eu, o ilustre, arrasto a minha cara e o lado do meu nariz pelo chão. é aqui que eu me esfolo. não ouso olhar, sigo só o som dos teus passos que vibra no alcatrão, e a cada esquina que dobro, já lá não estás. e ainda, para agravar a situação, parece que fazes força para despir o ouro de que eu te vejo coberta. prossegue a destruição do meu peito e, ainda assim, tenho a lata de sorrir. que ser curioso e ilógico, o meu. admito, a razão torna-se esquiva quando estás perto. e eu estúpido, e eu inutilizado, eu avariado. baralhado e com dificuldades para sobreviver. tudo porque soltei a fera que é o meu coração.

16.11.07

 

nova face do meu alimento

foi poético. eles dizem que se contar os meus sonhos, estou a condená-los à espera eterna de uma existência na realidade. onde é que eu já ouvi falar disto..? mas não interessa, porque eu não acredito neles. acho que isto é uma história que se conta na confusão de corpos e espíritos, os nossos. tudo o que vejo na cabeça agora são como que cortes de uma fita sagrada que se queimou. tu encostada à parede, magra, com os ombros para a frente, sempre os braços deslocados. desta vez caídos em mim. a tua barriga coberta por uma das minhas mãos e a outra à tua volta pela cintura, para te proteger do mundo. os teus cabelos unidos num motim, entregues à paixão. unidos, todos descontrolados. e, tenho que dizer, o beijo mais real de todos, violento e urgente. para mim, nunca nada tomou esta forma. decerto não te importas que acrescente um pormenor. eu diria estamos perdidos e tu ririas e eu também. essa côr de raça nenhuma dá-me tanta sede. sei que lutas. e quero que me fales de tudo o que não te sai, em voz baixa de arrepio. prometo segurar-te. prometo. os teus olhos não podem virar as lágrimas para dentro. que as tuas lágrimas sejam as minhas lágrimas. sei que estás com fome.

13.11.07

 

noite fraca

já nem sei se não é de mim a solidão. não sei onde dormes, mas as linhas da tua cara não me deixam mover. dá-me um olho. dá-me um olho porque há tanto para ver. não é de mim, só. há tanto maior que te quero mostrar. quero uma aventura mas falta-me uma canalha. não queres ser rufia? eu sou o pirata do bem. quem me dera saber quebrar corações.

que sítio para escrever. e que hora. tenho tanto para dizer...

30.10.07

 

única forma de morrer

deixa o dia morrer, cai no chão de olhos frios
dá de norte o teu sorriso para eu poder nascer
deixa ver-me entrar, deixa ver-te sair
larga as unhas cá p’ra fora e rasga tudo o que é subir
há até fogo em nós p’ra nos deixarmos cair

sente o sangue correr nas veias da escuridão
a grossura do meu grito, que te parta o coração
deixa-te fugir do mundo, deixa-o deixar de te ver
perde-te na luta dura e encontra-me no teu ser
anda ver o que há fora do mundo p’ra comer

sente a dor, sente o frio é isto que é o amor
deixa a pele, deixa as unhas é isto que é o amor

26.10.07

 

duplos sentidos

tenho que admitir que é normal eu pegar fogo à cama. das mais variadas formas, a minha cama arde vezes sem conta. fogo bruto ou branco, muitas vezes fogo teu, cor de peito. de facto, o que interessa é viver no meio das labaredas e sentir o fogo a nascer em todos os pontos. lume vivo que arranha. ora rasga, ora arrepia de sete. dou-te um saco cheio de todo este fogo. deita este fogo nas esquinas.

25.10.07

 

tropeça, menina, e passa a andar curvada comigo

quanto rezo pelo meu ser... sinto que carrego o maior dos fardos (e não me batam). tenho de ser o que tenho de ser, que é o que sou, e pouco mais há a dizer. pouco?! como minúsculo bocadinho deste mundo cada vez mais pequeno, é uma guerra, ser. é um peso infinito. não se mede à régua e esquadro, mas à luz da dimensão do ser. e sempre que for, nunca serei. daí a gravidade da situação. até ao dia em que tudo se confunde e se aclara. o dia em que eu e tu seremos uma e a única coisa.

24.10.07

 

outro gole

onde estás para me queimar quando o frio me oferece lentamente o sufoco?
onde estás? onde estás? onde estás? onde estás? onde estás? onde estás? onde estás? onde estás? onde estás? onde estás? onde estás? onde estás? onde estás? onde estás? onde estás? onde estás? onde estás? onde estás? onde estás? onde estás? onde estás? onde estás? onde estás? onde estás? onde estás? onde estás? onde estás? onde estás? onde estás? onde estás? onde estás? onde estás? onde estás? onde estás? onde est...

16.10.07

 

tudo, mas nem olhar

lá estava eu, uma vez mais, sem me sentar, num lugar que já é meu. o ar era o mesmo. à minha frente, tu. à esquerda lá ao fundo, a minha razão (essencialmente). também à minha frente, mas mais ao lado, o cantar do rapaz. parece que tem tempo para cantar. sobra a minha direita. ninguém à minha direita. só. e pela primeira vez reduzi-me. quem sou eu para te roubar? não, quem sou eu para achar que o meu roubo é bom para ti? que sei eu (já perguntava ela)? o problema é que quem canta em mim não é o meu peito, é o meu coração, que abre o peito. desculpa, mas continuo parvo, continuo ignorante, continuo arrogante, continuo a querer roubar-te.

 

a cena do quarto

é a melhor cena do filme. à maneira italiana, ali, o amor todo amontoado no quarto pesando diferente nas costas de cada um. a sensatez da irmã mais velha, a sobrevivente, a mais viva, provavelmente. o amor como uma escolha entre portas e atrás de todas as portas a desgraça. a doce desgraça que vem o filho do meio beber quando pouca gente olha, e a voz forte que ele tem e que revela a sua necessidade de garganta de segurar todos quantos o rodeiam com os seus risos secos e verdadeiros. é-lhe difícil, enquanto não vence aquilo que mais o culpa. a mãe, batida, encontrando uns fracos sorrisos no seu fundo, mas tão cheia de fundo, e o mais novo, tão virgem e tão fértil, desejando ajudar o irmão sem saber, mandando bitaites maiores que a sua idade. mas também, esta casa parece que obriga o coração a andar mais rápido que os anos. sim, é da casa. e o pai, espreitando pela porta. é tudo tão fácil para ele, e ele é bom. a mais velha deita a sua custosa sanidade no chão e o do meio aprende a lição, a da desgraça. a mãe mantém-se em pé na sua posição de desleixe de quem tem cinquenta e poucos e não gosta do frio para lá da porta da rua. o pequeno deita-se em cima da irmã, fazendo pesar-lhe nas costas o seu futuro. também ele um dia sentirá a necessidade de se deitar no chão, como os dois irmãos. é o que a casa gasta. e assim, entre bigodes empinados de boa gente com gosto para os aparatos, óculos (uns que deslizam um pouco pelo nariz, outros que não) e dentes fortes demais para serem corrigidos, o amor. é bom dizer que a cena propicia um confito de sentimentos (aliás, tudo começa numa conversa sobre um espelho que em cima é da branca de neve e em baixo é negro). eu não queria nunca outra família para a minha cena.

 

ainda sobre o cubículo

sempre engolir. mais uma vez engolir que não percebiam o quanto precisava do seu cubículo para fazer as suas viagens, para dizer as mais belas palavras, ou só para deixar cair a cabeça sem que ninguém visse. ia ter que continuar a deixar cair a cabeça pelas ruas da cidade, o que (por si só) era bom, mas nunca podia dormir só com o seu coração aberto pelos cortes. e ela no pano de fundo, enquanto passa aquela mistura de róque com música popular do leste.


12.10.07

 

canções importantes

se alguma vez te parecer ouvir coisas sem sentido, não ligues, sou eu a dizer que quero ficar contigo e apenas obedeço, com as artes que conheço, ao princípio activo que rege desde o começo e mantém o mundo vivo. se alguma vez me vires fazer figuras teatrais dignas dum palhaço pobre, sou eu a dançar a mais nobre das danças nupciais, vê minhas plumas cardeais, em todo o meu esplendor, sou eu, sou eu nem mais, a suplicar o teu amor. é a dança mais pungente, mão atrás e outra à frente, valsa de um homem carente, mão atrás e outra à frente, valsa de um homem carente.

9.10.07

 

o amor só é bom se doer

ela chegou primeiro na noite. o rio passava desfocado pela bruma, a mesma bruma que separava aquele lugar do mundo. sentou-se no chão e foi olhando o brilho cinzento claro das nuvens. com aquela cara indecifrável. a água fazia um barulho estranhamente agitado, um arfar líquido, de desejo. como se discordasse de qualquer coisa. como se discordasse de uma forma sofrida e um bocado violenta, embora controlada. ela sentia-se bem com isso, confortava-a. ele veio pouco depois. passou por cima do mundo pintado no chão, trazendo a grafonola debaixo do braço. sem palavras, sentou-e ao lado dela. não se via a lua. lá estavam eles, à direita dos heróis de sempre, prontos para dançar. obrigado por me teres cortado o coração e ele só se riu, seco e profundo. a garganta dela fraquejou. ele apoiou uma mão no chão, depois no joelho, e levantou-se. pegou na grafonola e levou-a para perto do meio das grandes rodas de mármore (ou coisa parecida) do chão. poisou-a e pô-la a tocar. ela, que o tinha acompanhado com os olhos, foi ter com ele. a gravação era antiga e o som bastante sujo. um blues que cantava o apocalipse. abraçaram-se num e dançaram uma dança lenta e verdadeira. dançaram sobre o mundo no chão. passaram tempos infinitos e rotativos sem qualquer quebra. e à hora do fim do disco, os dois despiram os seus casacos e deitaram-nos para o chão. ele tirou devagar um isqueiro do bolso e acendeu uma chama clara. pegou fogo aos casacos. as chamas balançavam ao som da água e de um ou outro carro que passava muito ao fundo. ela estava sentada entre as pernas dele e ele abraçava-a para compensar a perda do casaco, ou para lhe dar muito mais. ardiam os casacos e ele beijava-lhe o pescoço e depois a cara e depois a boca. por fim, quando o lume terminou o seu trabalho, cada um pegou na matéria ardida que restava do seu casaco. estava tudo morto. ela entregou-lhe o casaco ardido e ele, dando balanço, lançou os dois casacos ao rio. de repente, o rio parecia saciado, como se naquele momento estivesse mais limpa a cidade que protegia.

28.9.07

 
há o mundo. e há o amor. por isso, só temos que deixar o mundo e viver no amor.

20.9.07

 
vou-te buscar hoje, se assim o quiseres.

19.9.07

 

vou-te buscar quando quiseres.


17.9.07

 

depois da meia-noite

tenho sede da tua voz. vou-te buscar. salta para o meu carrinho de mão, levantamos vôo e tudo fica diferente. falaremos sobre a liberdade e sentiremos o aperto nos corações em crescimento - eu falo se quiseres ouvir e oiço se quiseres falar. voaremos sobre Lisboa. podemos parar na estrutura encarnada da ponte e eu dou-te um beijo na mão. podemos descobrir o ponto mais alto do castelo, já que somos rainha e rei. depois, descemos e sentamo-nos numa mesa de um café fechado, a mesa da esquina, e vem um pirata ensinar-nos porque é que bebe rum. então, voaremos baixinho mesmo em cima da calçada preta e molhada, reparando que a estrada é mais alta no meio do que nos lados e ouvindo o barulho dos aparelhos de ar condicionado. e riremos. o teu riso leve e verdadeiro. e o meu, seco e verdadeiro. e aí, estamos a jogar.

14.9.07

 

num qualquer sítio entre a mente e o coração, perto da garganta seca

ouvi as notícias um dia destes e já estava a correr na sombra dos montes. sob o sol limpo da manhã era já índio que faz parte da floresta com o seu andar leve ao ritmo do vento. depois caí deitado para trás e foi ver em mim a tua melhor posição de desencaixe. tão perto de mim. consigo lembrar-me do cabelo sempre elegantemente revoltado assentando no cadeirão atrás. as costas em arco ligavam o teu pescoço, que eu soube naquele momento que media exactamente a minha mão na amplitude em que ela se abre em equilíbrio, ao chão onde caías naturalmente. via as tuas pernas dobradas no mesmo ângulo da curva que na estrada velha dá para o amor acabando num ponto imperceptível dos teus pés finos que se dobravam como um bebé nos seus melhores tempos na barriga da mãe, suaves. os teus braços, a bandeira do teu desencaixe que me atormenta (no tormento da paixão), começavam na ligeiramente maior que o normal elevação dos teus ombros de pele cobrindo o osso. tinham conseguido permissão dos cotovelos para não se apoiarem como outras vezes a um ângulo maior que cento e oitenta graus no chão e, em vez, estavam sobre a tua barriga morena e branca acabando fora do mundo. fora do mundo. as tuas mãos davam uso a todos os ossos e articulações que as compõem e, numa dobra perfeita em que as suas costas ondulavam para os dedos magros, num misto de poesia e humanidade, deixavam entrar as pontas dos dedos magros nas tuas calças, inocentes e silenciosas, desfrutando do cetim da pele abaixo do teu umbigo.
e ainda assim (que errado, não ainda assim, apenas assim) era um índio, procurando caça e morrendo e vivendo na guerra de arma na mão.

6.9.07

 

apesar dessas linhas

ouvi por aí que te estavas a esfumar, como pessoa, como esperança. que te estavas a esfumar. ouvi que estavas a perder a vista, como mulher. eu acredito realmente em ti, e sou o nosso amor, mas sendo também tu o nosso amor, não te podes esfumar. eu sinto em mim que não podes. amor é fogo, não fumaça preta de lume apagado.

3.9.07

 

cinco dedos de um larápio amante

it's a motherfucker
being here without you
feeling that you need someone
to take you (gently) by the hand

 

tem andado gente à tua procura

moro noutro lugar. a minha raça é não ter raça. eu sou da raça dos que mergulham de olhos abertos, sabia ela. e sei eu. eles dizem que o que conta é a liberdade. que assim seja, pois descubro a minha liberdade no pagamento da dívida. é bom o pagamento, não é coisa má, como ficou pintada a palavra. eu ando, e dói a distância que se despe, mas da dôr faço alimento, pois o coração serve para amar, para doer. o amor e a dôr não rimam por acaso.

24.8.07

 

descascando

eles falavam da côr e dos mais altos caminhos das colinas. falavam de palavras tão pouco percebidas que iam perdendo sentido e ganhando ridículo. então, eu próprio percebia pouco, apesar de sempre me fazer encher o peito de ar o nome do amor. foi na hora da minha rendição que, com uma mínima redução (comparativamente), peguei no leme e comecei a navegar numa direcção grandiosa embora tapada pela bruma antiga. mas que aventura seria para quem soubesse o caminho? acredito que o destino da viagem interessa e é fácil identificá-lo. mas vamos é fazendo contas de redução. no dia em que escrever apenas o amor, nesse dia estaremos noutro lugar.

9.8.07

 

oração

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes,
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
ricardo reis
hoje oro com o pagão. oiço-te, hoje. que me raspe em amor, agora e para sempre. levo sempre comigo as tuas fotografias nas posições de desencaixe. e o fumo do nosso amor paira sobre mim, com uma voz distante e um olhar vago mas eterno.

27.7.07

 

a minha posição

vou passando na minha gloriosa e dolorosa solidão. a minha dor é a mais fria, mas o que me fere é o gume do coração. a minha mãe já me tinha avisado, estamos sempre sozinhos. mesmo que haja realmente outros connosco, não podemos fugir a quem somos se a nossa raça é não ter raça (e mergulhar de olhos abertos, pelo menos no meu caso). e tu pairas dentro de mim, ao lado de outras coisas infinitas. ao meu ombro, a minha cruz, de dimensão irritantemente humana. até ver (ou o irritantemente ou o humana).

25.7.07

 

sentado e curvado, envergava o escuro da distância e, sob o chapéu, dizia:

pesa no meu coração a ausência de ponte, mas acredito que só passarei com as unhas cravadas numa liana, porque assim serei eu. lembro os teus ombros adiantados, molhados pelas lágrimas que me salgam a mudez. crê que deves a vida.

14.7.07

 

muito cegos os meus olhos para o amarelo habitual

lembro-me de ver amores que se sabiam desviar. eu nunca soube ser assim, de pouca garra. tu és a minha imagem disso, por seres tu. a tua luz ofusca os vizinhos, ou as vizinhas, ou mesmo quem não mora perto. o que quero dizer é que, sendo o coração meu, é muito cego para quem não for tu.

13.7.07

 

perdido na própria terra, vou falando para não me calar

eu não te interesso muito. acho que preferia uma lágrima tua a muitos dos teus sorrisos, sem tirar qualquer valor aos últimos. de um lado pesa tudo, do outro a relação é leve em inglês. mas quero incessantemente o teu beijo.

11.7.07

 

linhas tuas quatro

diz-se por aí que és uma testa à frente. ouvi que até tinhas recebido um prémio qualquer por teres sido a primeira a perceber o som das palavras na cabeça. mas isso é só o que ouvi dizer e, mesmo que não o fosse, não vivemos da razão, nós, por isso a testa serve mas só como passagem, porque precisamos de ir fundo até ao coração e ao vento. conversa é conversa, e deito-me sempre contigo. o nosso amor é tão certo, como dizia o outro. tudo o que me baralha são os desvios perfeitos e inesperados e macios que sofre cada um dos teus cabelos. eles dizem, eles dizem que me podia perder por aí, mas só me encontro, nos teus cabelos. quando caem, ou rodopiam, ou alguns deles fazem mais ou menos de bola antes de cairem sobre a parte de trás do teu pescoço. magro. gosto de todos, até dos que parecem não se entender e fazem lembrar grupos de pessoas que se separam do resto para reivindicar qualquer coisa em nada essencial. no entanto, tenho uns preferidos: os que ousam atravessar os teus olhos, em raras incursões. esses transportam-me. o cruzamento desse olhar com aquele grupo de amantes (esses fazem-me lembrar uma pequena resistência de amantes) dá-te o teu ar mágico e deslocado. sim, tens um ar deslocado e místico. vejo-te a combater na frente, não a dormir. é muito possível que seja a resistência que ainda há na quadrilha de cabelos que assalta o teu olhar que te lembre do amor e te leve a desejar sentir o frio do chão nos pés. nessa altura estarei disposto a viver da tua pele e dos teus sinais, se assim o quiseres, princesa de fora.

8.7.07

 

és tu, mas eu preciso de alimento

eu acredito em ti. acredito mesmo, com o coração. verifico que o equilíbrio é um linha muito muito fina que corta o abismo nas suas duas faces. nós pertencemos aqui, e não quero que me fujas. não quero que me abras os dedos para passar, água.

5.7.07

 

uma história em três partes

1ª parte
ele dobrava várias esquinas todas as noites. eram íngremes, as ruas, fazendo lembrar o frio de longos tempos passados na cave do número quatro da rua fechada aos homens, no tempo em que os segundos caíam perdidos no chão e ressaltavam dando voltas barulhentas. Crus tempos de perdição em que ele sabia por que lutar mas em que lhe faltava a força. toda a poeira assente nas capas das estatuetas tapadas e a corrosão dos velhos instrumentos davam todo um cheiro de esquecimento àquela cave onde o chão se mantinha oco e pronto a romper. o silêncio entranhava-se-lhe no suor dos cabelos sobre a testa e os olhos tinham passado a roxos de todo o assentar nos punhos cada vez mais afiados. e o molhado das íngremes ruas que lembrava a chuva que o salvara tantas vezes da morte pela sede nas raras noites em que esticava o pescoço pela janela (que espreitava quase ao nível do chão) de cabeça virada ao contrário e boca aberta. a chuva molhava-lhe os olhos a boca e a alma, tão secos. foi numa dessas aventuras que notou pela primeira vez a passagem da índia (índia como sinónimo de desconhecida e diferente e, talvez, de pele queimada). viajava naquele bairro onde não vão as pessoas transportada por duas pernas para as quais o nome perna parecia tudo menos suficiente. aquilo era mais ou menos um hino à locomoção, a sua beleza não era divisível. devido à infinitude da sua beleza em todas as partes do seu corpo, tornar-se-ia estúpido e confuso apreciá-la por partes, tinha de ser de alma. então, não como quem vende, mas como quem ama, ofereceu a sua alma, sacrificando-a. desde essa noite até sempre, ele sai da cave nas noites dobrando as esquinas atrás dela e ela consome a alma dele de forma absoluta, à medida do amor.

2ª parte
a segunda parte é igual à primeira mas ele e ela trocam de papéis. é a mesma história mas é ele o índio e ela é quem sacrifica a alma.

3ª parte
esta história é contada em três partes porque se tudo fosse escrito de uma vez, seria maior que o mundo e, como eu ainda não sou maior que o mundo, não consigo fazê-lo dessa forma. no entanto, é para ser vivida nas ruas para lá das ruas.

4.7.07

 

o desejo da possibilidade de semelhança entre pessoas e bocados de madeira


3.7.07

 

tudo o que faço é esperar por ti

dizem que ele morre, mas tem sempre lotação esgotada. sei tão bem que não há motivo para mudar. vejo que não controlas bem os olhos, que novidade! talvez tudo isso não seja mais do que um espasmo do teu olho, mas mais longo. ou caio eu pelas ruas da cidade elevando-te em vão. de longe, pareces sentada. lembro-me dos teus dedos e como são finos os teus braços. Deus, porque vivo ajoelhado ou de pé, faz-me convite, porque sei que ela quer descer, vai ter que descer, ou será só mais uma que não sabe morrer, que não quer morrer. sorrirei quando vir os meus ossos e unhas, só. quando tiver o sossego da exaustão. arder, quero arder. vê a minha lua, como é lua, vê como na noite se escondem viagens friamente doces. vem fundo comigo, porque não duro para sempre. ah, como me dói amar a dor e o amor.

30.6.07

 

transborda, sim

tens o dom de mudar o tempo. eles começam a ver-me transparente, tão transparente como mais transparente que eu. mas as nossas ruas são mais fortes, faz sentido que eu vacile. espero que deixes cair uma mão. às vezes penso que é mau que a fechadura da minha porta seja tão pequena, por isso é que vou tentando fazer a porta velha e diferente do que é mundo. abro o toque em ti, para que cresça por si. é assim que funciona para lá das coisas. o amor só o é se for amor. nunca encontrarei o amor no mundo.

morre o tempo, em mãos sujas.

21.6.07

 

com que então a tomar conta de mim

- vê como ela engole tudo! ela sabe mergulhar, mas é tão fácil estar seca. a glória mora em mim mas ela não vê um pontinho lá no fundo depois dos terrenos de várias cores (latifúndios e outros). à distância tão infinita quanto próxima, sou o sentado com longas longas barbas à moda do amor.

20.6.07

 

lisboa, 19 e 20 de junho de 2007

não tenho raça, mas hoje sinto os joelhos a tremer. no que depender da minha razão, estou fora da corrida inexistente. não quero ser um pico ao teu lado. mas, já avisei que gosto mais do amor do que da razão e posso dizer que sempre fui aguçado... 6 passos apenas, por não ser noite demais. a garota está de fogo em toda ela. levo as minhas cartas e tenho de as jogar, como as jogo em todas as mesas que me deixam. o corte, sinto o corte lento. ela não mede coração do rapaz.

17.6.07

 

sete

ainda agora não digeri a tua posição. és mulher. anseio pela minha metamorfose. sim, passarei de potência a obra.

16.6.07

 
hoje não começo em ti. é diferente. sou curto demais para os longos, sou longo demais para os curtos. sempre vivi num pacote e nunca lhe pertenci. tenho de aceitar todo o choque, o tormento. foge-me o alento sibilante por saber que a minha medida é diferente, mas sei que tenho coração. cada vez mais preciso de passos para engolir todas as dores. há palavras que me rasgam e me partem, acabo por me roer. mas há que aceitar a cruz. quando penso que posso ter uma vida pela frente, sou pequenino. o fulgor das minhas queimaduras faz-me saber que pode sempre pesar mais, posso ser um com os joelhos esfolados. mas não vai ser nunca noutra rua que irei gastar-me, pese o que pesar, sozinho, se for preciso. acredito na graciosidade e perco-me no seu desejo, mas pisarei o chão que vier. se fosse de outra maneira, matar-me-ia a alma mais cedo que a sede. eu ando, é o que faço. não gosto que me dispam ou, pelo menos, não estou habituado a tal. se é aí que mora o meu conflito? não sei, sou eu. pois, não sei, talvez construa. hoje, sobre ti, nada a dizer. ouro.

15.6.07

 

a viagem, sempre

às vezes fico fundo e longe, ou não é a minha côr a da dôr? sei que preciso de comer metros, quando me apertam os goles. cada tempo é garganta seca e velha e os meus olhos vão querendo ceder ao peso do pó nas pestanas. não toco no meu cabelo há anos e os meus ombros estão gastos. como sufoca a alma, o amor. lembro-me sempre das palavras, lembro-me sempre das músicas e lembro-me sempre das imagens. não esqueço nem sequer o teu reflexo em mim, pois é dele que sou feito. compreendo tantos outros, agora. eu digo: a noite é minha, ninguém a apaga. mas qual será o tamanho da noite, se eu conquistar o dia?

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